Category Archive artigo

A metrópole dos esquecidos

Por Luiz Augusto Pereira de Almeida

São Paulo, com seus 12 milhões de habitantes, é a triste síntese do equivocado planejamento da expansão dos maiores municípios brasileiros. Trata-se de um erro histórico, que cria privilégios, promove imensa estratificação demográfica e social, conspira contra o crescimento econômico, o desenvolvimento e o meio ambiente, levando a uma situação caótica de uso e ocupação do solo. A questão é mostrada com imensa clareza em filme do filósofo e premiado fotógrafo João Farkas, intitulado “A cidade segregada”, que aborda todos os problemas decorrentes da disfunção do meio urbano no País.

A distância entre a residência da maior parte dos habitantes e dos escritórios ou fábricas é um dos problemas que prejudicam a qualidade da vida. Muita gente, tendo de pegar vários ônibus, trens e metrô, consome seis horas diárias apenas para ir e voltar de casa ao trabalho. Dois terços dos paulistanos viajam mais de duas horas por dia para ir trabalhar, ou seja, quatro horas para ida e volta.

A região onde se localizam 70% dos empregos, o centro expandido, tem poucos habitantes, apenas cerca de dois milhões de pessoas, integrantes da classe alta e da classe média alta. Empurramos a classe média baixa e os mais pobres para cada vez mais longe. Cinco milhões de habitantes da classe média estão morando na periferia. Quanto mais distantes os imóveis, mais baratos. Quanto mais próximos, mais caros e inacessíveis para a maioria.

O centro expandido de São Paulo tem 250 quilômetros quadrados. É quatro vezes e meia maior do que Manhattan, em Nova York, e duas vezes e meia o tamanho de Paris. A região perdeu 400 mil habitantes nos últimos 30 anos. Apenas 22% do total de paulistanos vivem nesta “cidade intramuros”, enquanto 78% estão nas periferias, onde numerosas áreas, e não apenas as favelas, não têm áreas verdes, saneamento básico adequado, equipamentos de lazer e, o que é mais grave, a presença do Estado em termos de saúde, segurança e habitação. Essa distribuição urbano-demográfica contraria a lógica da justiça social e da qualidade da vida, pois as pessoas deveriam trabalhar, estudar, ter assistência médica e lazer nas mesmas regiões onde moram.

São Paulo é uma cidade tão desigual, que a taxa de mortalidade infantil em vários bairros chega a ser 20 vezes maior do que nas regiões mais desenvolvidas. Quem mora em áreas periféricas vive, em média, 23 anos a menos dos que habitam o centro expandido. Por exemplo, a longevidade média em Moema é de 80 anos, ante 57 em Cidade Tiradentes. Moradores dos locais mais afastados levam cerca de 75 dias para marcar uma consulta médica na rede pública de saúde.

Também é difícil prover saneamento básico, água e esgoto para todos, em áreas tão espalhadas. São Paulo precisaria tornar-se mais adensada, para que pudesse ter uma adequada infraestrutura, cujo custo de provisão seria muito menor. A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) define como densidade ideal a relação de 400 habitantes por hectare, que expressa o equilíbrio entre qualidade de vida e desempenho dos equipamentos urbanos. Em São Paulo, são apenas 125. Ou seja, estamos na contramão do mundo civilizado.

O uso e a ocupação desordenados do solo também levam à devastação de mananciais hídricos e da vegetação, com numerosas invasões de terrenos que deveriam ser preservados. Mais recentemente, essa atividade ilegal passou a ser exercida pelo crime organizado, que ocupa amplas áreas, desmata e faz loteamentos clandestinos, comprados por milhares de pessoas, que nem desconfiam das irregularidades. Por conta disso, o município perdeu 7,2 milhões de metros quadrados de verde e 1,2 milhão de árvores. Até 2030, São Paulo terá mais 1,2 milhão de moradores. É preciso pensar em todas essas questões para reorientar os planos de expansão.

Enquanto a maioria do povo enfrenta as agruras dos erros históricos do planejamento urbano, o centro da cidade, área com ampla infraestrutura, vai sendo cada vez mais abandonado, com prédios invadidos, colocando em risco a segurança, a vida e a integridade de milhares de serem humanos. Seria importante repovoar de modo adequado e digno essa região.

É preciso rever as políticas públicas de uso e ocupação do solo em São Paulo e nas cidades brasileiras, propiciando maior adensamento, recuperação das áreas centrais para habitação e revisão dos protocolos de verticalização das construções. É preciso expandir o direito das pessoas de morarem onde está seu trabalho, escola, lazer e acesso aos serviços do Estado. Política habitacional não se resume a oferecer moradia barata a três horas de onde tudo acontece. É preciso prover vida de qualidade, sem segregação e com foco na mitigação das desigualdades.

Luiz Augusto Pereira de Almeida, diretor da Sobloco Construtora e membro do Conselho Consultivo do SECOVI.

IGP-M no reajuste dos aluguéis? O dilema entre ter bom senso ou razão

Por Livia Rigueiral, CEO do Homer

Não bastasse a preocupação com a crise de saúde pública mundial ocasionada pela pandemia, neste início de 2021 pude notar também uma grande aflição por parte de muitos brasileiros que vivem de aluguel quanto à possibilidade de o reajuste dos contratos de locação ocorrer com base no IGP-M, que é o Índice Geral de Preços-Mercado medido pela FGV. Isso porque esse índice ao qual os contratos são indexados fechou 2020 em 23,14%, maior alta desde 2002, enquanto a inflação oficial, que é o IPCA – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo medido pelo IBGE -, está até o momento em 4,31%.

Entendo que os locatários têm motivo mesmo para estarem aflitos, afinal, por lei, é o IGP-M que estabelece um parâmetro quando o dono de um imóvel, com respaldo contratual, resolve alterar o valor mensal que é pago pelo inquilino. Porém, diante dessa alta exorbitante ocasionada pelo atual desequilíbrio econômico e pela variação do dólar, vi o mercado imobiliário se movimentar e passar a deixar de usar esse índice apelidado de inflação dos aluguéis nos reajustes. “Proprietário x Inquilino, negócios à parte”, hoje tem sido muito mais “Proprietário x Inquilino, negócios em comum”, sob um olhar muito mais humano de ambas as partes, com fatores sociais se sobressaindo ante a variação do índice.

Também, pudera, com mais de 14 milhões de desempregados no país, e uma instabilidade financeira pairando em muitos lares e sem prazo para chegar ao fim, negociar se tornou palavra de ordem – e sobrevivência. Muitas imobiliárias, donos de imóveis e empresas, a pedido dos locatários ou por conta própria, têm usado o IPCA para reajustar os valores nos novos contratos, o que garante um certo equilíbrio do setor. Vejo isso de forma muito positiva, e aposto no diálogo como solução para que, neste ano que se inicia, não testemunhemos um recorde de quebras contratuais por conta de aumentos incabíveis e inesperados neste momento de crise.

Já foram muitas as quebras das cadeias produtivas e de consumo. Caso não haja conversa, o reajuste com base no IGP-M só virá para agravar isso. É só pensar, quem assina um contrato imaginando uma correção monetária de mais de 23% no aluguel? Quem se programa para tal aumento?

O bom-senso aponta para a negociação, e eu estou com ele, antes ter bom-senso a usar a razão das cláusulas dos contratos. De legado, a pandemia nos trouxe a crise, mas também algumas mudanças no comportamento das pessoas, uma delas, na minha opinião, foi o aumento da empatia, do se colocar no lugar do outro para ter uma visão macro das situações. E agora em 2021, é isso que acredito que traremos para nortear nossas ações. Olhares mais humanos, e decisões humanizadas.

Tecnologia como meio para fomentar a inovação na Construção Civil

Por Alexandre Quinze

O que significa a Transformação Digital? Muito mais do que um conceito da “moda”, esse é um movimento essencial para empresas em todo o mundo e uma escolha de CXOs (Chief Experience Officer) experientes.

Nesse processo a tecnologia é o meio e não o fim. Isto é, falamos de um apanhado de ferramentas criadas para gerar soluções e é justamente nessa finalidade que se faz a diferença. A tecnologia deve ser compreendida como “commoditie“, ou seja, ela é a matéria-prima para motivar a inovação.

Dentro desse contexto, a digitalização necessita estar conectada aos propósitos das organizações, mantendo a função de atender as necessidades dos clientes, parceiros e colaboradores. Em meio a pandemia do Covid-19 assistimos muitas empresas entrarem nesse movimento inesperadamente e, dessa forma, os alicerces do processo acabaram não correspondendo às expectativas porque não cumpriram a missão da servitização.

E o que é a servitização? É o movimento que as empresas fazem para agregar valor aos produtos oferecendo serviços relacionados a eles. É quando se oferece o “sistema produtos-serviços” ao invés de vender apenas o produto. E esse é um caminho ancorado pela Transformação Digital, graças ao uso da tecnologia a favor das soluções.

A tecnologia tem caminhado cada vez mais nessa trajetória sendo sustentada por iniciativas de inovação. Um ponto crucial dentro de uma cultura de inovação é o investimento em aprendizagem. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, mais de um terço das habilidades que eram consideradas importantes mudaram em 2020 e a força de trabalho deve se adequar a esse cenário.

Em uma cultura de inovação, o processo contínuo de desenvolvimento de habilidades tem que fazer parte da experiência. As empresas fornecem plataformas para que os funcionários continuamente possam aprimorar seus conhecimentos. Permanece a grande reflexão sobre o que é na verdade uma cultura de inovação.

A grande lição que temos aprendido é que o organismo chamado “corporação” não existe e é apenas um somatório de indivíduos que, na melhor das hipóteses (boas culturas de inovação), compartilham dos mesmos valores, crenças e atitudes. Com esses valores e crenças bem alinhados ao propósito nobre de inovar e melhorar o mundo, as atitudes individuais são somadas e criam a cultura de inovação tão desejada.

Há mercados carentes por tecnologia, nos quais o modelo de servitização se adequa perfeitamente às suas necessidades. É o caso da construção civil, que se movimenta em prol da descoberta da tecnologia como mola propulsora para a entrega de soluções eficientes e inovadoras.

As construtechs – startups da construção civil – vêm cumprindo o papel de agregar valor por meio da resolução de problemas que estagnam ou de fato travam o desenvolvimento do setor. Líderes de mercado se destacam por iniciativas que atrelam inovação e tecnologia para atender demandas específicas.

Nasce a TruTec, uma empresa do grupo da Vedacit – líder no mercado de impermeabilização no país – que reúne as construtechs com foco na servitização e em sistemas de construção baseados em dados para o desenvolvimento de soluções tecnológicas.

O novo modelo de negócios fortalecerá o relacionamento com as construtoras, possibilitando a atuação direta na “dor” dos clientes, com velocidade de execução, redução de custos e desperdícios nas obras. A tese da empresa é atuar no B2B com soluções focadas na saúde das edificações e no B2C oferecendo a digitalização do varejo da construção civil.

Outro exemplo de união eficiente da tecnologia com a inovação no setor é a Construcode, que pertence à TruTec. Trata-se de uma plataforma online que converte seus projetos de engenharia em etiquetas inteligentes que permitem, quando escaneadas por tablets e smartphones, acesso às plantas técnicas e envio de dúvidas direto para os projetistas no escritório.

Todas as iniciativas que inserem a tecnologia atuando a favor de uma gestão eficiente são válidas e seguem em um caminho de convergência com a inovação. É para esse caminho que devemos seguir. É nessa base que devemos quando olhamos para o futuro.

Alexandre Quinze, o executivo de Tecnologia da Informação da Vedacit, co-founder e CEO da TruTec.

O que o período pós-pandemia deve ensinar para o mercado imobiliário

Por Silvio Kozuchowicz, CEO da SKR Arquitetura Viva

Um vírus chegou com tudo no mundo e chacoalhou as estruturas de sociedades, economias, mercados e, principalmente, a vida das pessoas. Estamos escondidos, praticando isolamento social, desempenhando nossas atividades na frente do computador e sem muita certeza do impacto do que isso vai trazer para a forma de pensar, viver, escolher, interagir, decidir e consumir. Posso afirmar que existirá o AC/DC – não a conhecida banda australiana de rock and roll e nem o Antes/Depois de Cristo – mas sim o “Antes do Coronavírus/Depois do Coronavírus”, mas por enquanto estamos no meio, ainda tentando sobreviver aos efeitos devastadores desse enorme tsunami, que ainda está passando, porém, modificando cenários e nos fazendo refletir e repensar muita coisa.

O vento indomável ainda deixa tudo baseado no inesperado, mas alguns sinais já se mostram no meio disso tudo. Esse período intermediário que vivemos agora trouxe a oportunidade de experimentar um contato ainda maior com a nossa casa, descobrindo novas formas de interação com esse ambiente tão importante e que hoje nos aconchega, protege e ressignifica a nossa vida. A tecnologia, que antes distanciava, hoje aproxima.

A forma como viveremos a vida na etapa do “Depois do Corona” terá um grande impacto em vários setores, incluindo o imobiliário. A forma de arquitetar, construir e propor o viver deve passar por uma grande renovação, assim como a forma de interagir com os entornos e as cidades. Ou seja, iremos transpor cada vez mais as barreiras da imobilidade do imóvel.

Porém, eu acredito que a atemporalidade é um aspecto que ganha valor. Eu gosto muito de um artigo do estilista Giorgio Armani no qual ele faz uma reflexão sobre como serão os desfiles após a pandemia. Qual será o sentido de investir em coleções que logo perdem o seu valor. Qual é o sentido de manter a moda tão volátil? Qual é o sentido de investir em apartamentos cada vez menores que sacrificam a qualidade do morar? O barato pode sair caro.

Algumas tendências irão se tornar em movimentos que se consolidarão cada vez mais, como o coliving e a arquitetura de hospitalidade. Áreas comuns compartilhadas com estilo e funcionalidade, união de princípios como serviços, interação e a comunicação por meio da tecnologia. Isso já é realidade em alguns empreendimentos e deve se tornar ainda mais presente no período pós-pandemia.

A reflexão que o pós-Covid 19 nos deixará de lição é que a arquitetura será o principal vetor de mudança para o desenvolvimento imobiliário. Não poderemos nos ater aos modismos. Não haverá mais espaço para a criação de mercados que amanhã não terão mais a preferência das pessoas. As pessoas vão valorizar cada vez não somente a forma de habitar, mas de viver.

Tecnologia como meio para fomentar na construção civil

Por Alexandre Quinze

O que significa a Transformação Digital? Muito mais do que um conceito da “moda”, esse é um movimento essencial para empresas em todo o mundo e uma escolha de CXOs (Chief Experience Officer) experientes.

Nesse processo a tecnologia é o meio e não o fim. Isto é, falamos de um apanhado de ferramentas criadas para gerar soluções e é justamente nessa finalidade que se faz a diferença. A tecnologia deve ser compreendida como “commoditie“, ou seja, ela é a matéria-prima para motivar a inovação.

Dentro desse contexto, a digitalização necessita estar conectada aos propósitos das organizações, mantendo a função de atender as necessidades dos clientes, parceiros e colaboradores. Em meio a pandemia do Covid-19 assistimos muitas empresas entrarem nesse movimento inesperadamente e, dessa forma, os alicerces do processo acabaram não correspondendo às expectativas porque não cumpriram a missão da servitização.

E o que é a servitização? É o movimento que as empresas fazem para agregar valor aos produtos oferecendo serviços relacionados a eles. É quando se oferece o “sistema produtos-serviços” ao invés de vender apenas o produto. E esse é um caminho ancorado pela Transformação Digital, graças ao uso da tecnologia a favor das soluções.

A tecnologia tem caminhado cada vez mais nessa trajetória sendo sustentada por iniciativas de inovação. Um ponto crucial dentro de uma cultura de inovação é o investimento em aprendizagem. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, mais de um terço das habilidades que eram consideradas importantes mudaram em 2020 e a força de trabalho deve se adequar a esse cenário.

Em uma cultura de inovação, o processo contínuo de desenvolvimento de habilidades tem que fazer parte da experiência. As empresas fornecem plataformas para que os funcionários continuamente possam aprimorar seus conhecimentos. Permanece a grande reflexão sobre o que é na verdade uma cultura de inovação.

A grande lição que temos aprendido é que o organismo chamado “corporação” não existe e é apenas um somatório de indivíduos que, na melhor das hipóteses (boas culturas de inovação), compartilham dos mesmos valores, crenças e atitudes. Com esses valores e crenças bem alinhados ao propósito nobre de inovar e melhorar o mundo, as atitudes individuais são somadas e criam a cultura de inovação tão desejada.

Há mercados carentes por tecnologia, nos quais o modelo de servitização se adequa perfeitamente às suas necessidades. É o caso da construção civil, que se movimenta em prol da descoberta da tecnologia como mola propulsora para a entrega de soluções eficientes e inovadoras.

As construtechs – startups da construção civil – vêm cumprindo o papel de agregar valor por meio da resolução de problemas que estagnam ou de fato travam o desenvolvimento do setor. Líderes de mercado se destacam por iniciativas que atrelam inovação e tecnologia para atender demandas específicas.

Nasce a TruTec, uma empresa do grupo da Vedacit – líder no mercado de impermeabilização no país – que reúne as construtechs com foco na servitização e em sistemas de construção baseados em dados para o desenvolvimento de soluções tecnológicas.

O novo modelo de negócios fortalecerá o relacionamento com as construtoras, possibilitando a atuação direta na “dor” dos clientes, com velocidade de execução, redução de custos e desperdícios nas obras. A tese da empresa é atuar no B2B com soluções focadas na saúde das edificações e no B2C oferecendo a digitalização do varejo da construção civil.

Outro exemplo de união eficiente da tecnologia com a inovação no setor é a Construcode, que pertence à TruTec. Trata-se de uma plataforma online que converte seus projetos de engenharia em etiquetas inteligentes que permitem, quando escaneadas por tablets e smartphones, acesso às plantas técnicas e envio de dúvidas direto para os projetistas no escritório.

Todas as iniciativas que inserem a tecnologia atuando a favor de uma gestão eficiente são válidas e seguem em um caminho de convergência com a inovação. É para esse caminho que devemos seguir. É nessa base que devemos quando olhamos para o futuro.

Alexandre Quinze, executivo de Tecnologia da Informação da Vedacit, co-founder e CEO da TruTec.

O mercado imobiliário sobreviveu e se surpreendeu em 2020. O que esperar de 2021?

Por Bruno Pardo

2020 foi um ano desafiador, pra dizer o mínimo. É inegável o impacto que a pandemia ocasionada pelo novo coronavírus provocou e ainda irá provocar em todos os setores sociais no mundo inteiro. Economicamente falando, mudanças estratosféricas aconteceram, desde o incentivo a comprar dos pequenos negócios a alterações legislativas com o fim de manter o emprego e a renda dos brasileiros.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estimou, em setembro, uma queda de 4,5% da economia mundial nesse ano, sendo que no Brasil o percentual chega a 6,5%. Para 2021, enxerga-se um cenário mais positivo no país, com alta de 3,6% causada, principalmente, pela chegada da vacina.

No entanto, esse otimismo já é observado por um setor que sofreu, sim, com a pandemia, mas que provou ser um porto financeiramente seguro: estamos falando do mercado imobiliário. Um dos motivos principais é, sem dúvida, a histórica baixa da taxa Selic, que segue em 2%. Ora, se a maioria das pessoas não compra um imóvel à vista e precisa de linhas de crédito para investir em moradia, uma taxa de juros menor favorece muito o mercado.

Segundo dados do Banco Central (BC) divulgados em novembro, o saldo dos financiamentos imobiliários atingiu o recorde de quase R$700 bilhões em outubro de 2020. Outro recorde alcançado no mesmo mês, dessa vez denotado pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), foi o financiamento de 45,5 mil imóveis por meio do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). Isso equivale a R$13,86 bilhões.

A Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) revelou em dezembro que a quantidade de vendas no terceiro trimestre de 2020 foi melhor que comparado ao mesmo período de 2019, obtendo uma alta de 39,7%. Só em setembro desse ano, cerca de 13.500 unidades foram vendidas, e esta foi a maior comercialização desde maio de 2014.

Engana-se quem pensa que esse contexto beneficia apenas os altos escalões envolvidos no meio imobiliário. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em novembro, foram 5,722 milhões de pessoas ocupadas na Construção Civil no terceiro trimestre, cerca de 400 mil a mais que no trimestre anterior. Dessa forma, o setor ocupa o resultado mais positivo no mercado de trabalho no período em questão.

Ainda segundo o IBGE, mas em outra pesquisa relacionada ao Produto Interno Bruto (PIB) do 3º trimestre de 2020, o PIB da construção civil cresceu 5,6% no terceiro trimestre de 2020 em comparação com o segundo.

Com tudo isso elucidado, é preciso destacar a força do mercado imobiliário e o porquê do otimismo para 2021? Se sim, vamos lá. Sobrevivemos. Em um cenário completamente caótico e insalubre, o setor não só saiu quase ileso, como também teve altas inesperadas. Nem o mais deslumbrado profissional da área acreditava que, no fim, o resultado seria tão surpreendente.

E foi. Cabe ressaltar aqui que, apesar do favorecimento generalizado, cada empresa se destaca com aquilo que tem de melhor a apresentar e que melhor sabe fazer. São propostas, produtos, opções e benefícios que cativam o cliente e singularizam o imóvel. Isso, na verdade, não está diretamente ligado a qualquer ano, mas está no cerne da motivação de cada empresa. Por fim, torcemos, é claro, para que 2021 seja inspirador e traga a evolução contínua para que tenhamos muito mais a conquistar e entregar a partir daquilo que o mercado demanda. A confiança segue firme e forte.

Bruno Pardo, gerente comercial da GT Building – incorporadora que teve Valor Geral de Vendas de R$200 milhões em 2020.

A importância do Big Data na construção civil durante a pandemia

Por Wanderson Leite

O crescimento acelerado do segmento de construção civil durante a pandemia foi uma grande surpresa para todos. O número de reformas aumentou significativamente, chegando a quase 37% entre os meses de abril e junho. O índice se manteve em alta, uma vez que essa tendência foi incorporada aos novos hábitos do consumidor. E a melhor alternativa para as lojas de materiais para construção alavancarem seus negócios nesse novo contexto foi o Big Data.

Essa tecnologia é capaz de analisar uma grande quantidade de dados em pouco tempo e com muita precisão. Trata-se de um recurso capaz de otimizar processos, entender padrões de comportamento de clientes e do mercado, com o intuito de facilitar a tomada de decisão por parte dos gestores. Analisar as mudanças ocorridas durante a pandemia foi crucial para o mercado de construção civil.

As pessoas ficaram mais em suas casas, que além de servirem como moradia, se transformaram em um ambiente de trabalho e também de lazer. Passando mais tempo em confinamento, a preocupação com a estética e com o conforto das residências ganhou força e, consequentemente, as obras também. Ao mesmo tempo, aqueles comércios que esperavam o momento ideal para iniciar uma reforma sem que isso prejudicasse seus funcionamentos, encontraram na quarentena uma ótima oportunidade para tirar os planos do papel.

Com o isolamento social, os clientes deixaram de sair na rua batendo em portas de lojas de materiais para construção para pedir orçamentos; esse processo aconteceu online, através de sites e redes sociais. Nesse cenário, esses estabelecimentos se viram obrigados a migrar para o mundo digital e iniciar o atendimento online para sobreviver e impulsionar suas vendas.

Entretanto, esses esforços de nada adiantam, se não estiverem aliados ao Big Data, que aponta aos comerciantes onde estão as obras em andamento na região e quais as demandas de cada uma, para que eles busquem o cliente ao invés de aguardá-lo chegar ao balcão ou ser atingido virtualmente. Trata-se de uma estratégia muito mais incisiva e assertiva.

O contexto atual fez com que as empresas começassem a entender que o meio mais eficaz de projetar seus negócios é construindo um relacionamento com o cliente e entendendo como ajudá-lo da melhor forma. Assim, o principal objetivo do Big Data é fazer a ponte entre as duas partes, para que dessa maneira seja possível entender a demanda que o cliente procura e firmar uma relação de confiança que pode também ajudar em negócios futuros.

O trabalho de prospecção hoje não é uma opção, ele é fundamental para a sobrevivência de qualquer empresa. Criar uma presença digital é fazer uma prospecção passiva; é esperar que a sua visibilidade nas redes traga o cliente até você, enquanto o Big Data te leva até ele. O mais importante é ter uma prospecção passiva combinada à ativa, mirando a estabilidade e uma receita previsível. Essa foi a grande conquista dessa tecnologia em meio à pandemia.

Wanderson Leite, idealizador do YES Menu.

Faça você mesmo: como a pandemia transformou as vendas de material de construção

Por Daniel Mayo, diretor de segmento da Linx

A pandemia do novo coronavírus e o isolamento social imposto trouxeram um estilo de vida diferente. Grande parte da população passou a trabalhar de casa, em um primeiro momento de forma temporária, mas, aos poucos, como nova realidade. Com mais tempo em casa, as paredes que precisavam de uma nova pintura, reparos que estavam atrasados e até mesmo decorações para deixar o ambiente mais agradável se tornaram o novo passatempo – e, consequentemente, o famoso “Faça você mesmo” dominou o setor de construção e home center.

Prova disso é o salto de vendas de materiais pela internet para pequenas reformas. Uma pesquisa conduzida pela ELK apontou que 24% dos consumidores finais já tinha comprado materiais online para pequenas reformas alguma vez na vida. Nos três primeiros meses da pandemia, porém, esse número atingiu impressionantes 42%. Para os varejistas, essa animação de criar e reformar com as próprias mãos significou migrar rapidamente para o universo digital. Para abocanhar uma parte do faturamento do segmento, 65% dos lojistas passou a vender de forma remota, com entregas. Em maio, esse número era de 44%.

Quebrando paradigmas, lojas menores e “de bairro”, sem presença no online, precisaram se adaptar, comercializar pela internet, além de ampliar o leque de produtos para bricolagem e jardinagem. Porém, apesar da vontade e potencial de mercado, o varejista precisa estruturar sua operação consistentemente. A capacidade de adequação também inclui surpreender e munir o cliente de maneiras que facilitem a compra, como pagamentos, prazos de entrega mais rápidos e promoções eficientes. Então, como preparar a loja para tais processos e com fluidez? Abaixo, elenco dois fatores como protagonistas.

Organização, formas de pagamento e prazos de entrega: os pedidos desse tipo de varejo costumam ser complexos, com diversos itens, diferentes tipos de processos – como aquisição online e retirada em loja – e o movimento oposto, com entrega delivery. Além disso, existe a possibilidade da entrega ser realizada em locais diferentes, principalmente quando executada por terceiros (engenheiros e arquitetos, por exemplo, que compram materiais para diversas obras no mesmo dia). Investir em sistemas que integram esses processos garantirá organização e versatilidade ao cliente, que deseja uma experiência de compra ágil e eficaz em todos os passos, além de formas de pagamentos facilitadas.

Promoções e movimentação de estoque: assim como diversos segmentos, o de material de construção e home centers conta com diversas vendas “casadas”. Uma pessoa pode precisar de uma lata de tinta para uma pintura, mas também comprar plantas e produtos para pequenos reparos. Além de garantir que há disponibilidade e controle dos itens estocados, é interessante aplicar soluções que facilitem os mesmos descontos, seja no PDV ou e-commerce, com oferta de brindes para descomplicar a vida do varejista. Nesse tipo de plataforma, ainda pode ser possível gerar vouchers e fidelizações, fatores que auxiliam o fortalecimento de pequenos empreendimentos.

Para o cenário do pós-pandemia, podemos prever a manutenção da alta de vendas do setor. Uma pesquisa do Grupo Zapp indicou que o tipo de imóvel buscado mudou durante a crise, com os brasileiros desapegando de moradias menores e próximas ao trabalho e se interessando cada vez mais por imóveis afastados, maiores e com vista para a natureza. Mais do que uma tendência, a mudança do estilo de habitação deve sustentar a consolidação do “Faça você mesmo”, com mais pequenas reformas tomando lugar nas novas casas.

Qual será o impacto para o setor? Podemos listar três: a primeira é que, com o aumento de metragem das casas, produtos de jardinagem e bricolagem devem ganhar ainda mais destaque; a segunda, lojas menores e afastadas poderão ganhar mais visibilidade por contraporem a distância das grandes redes; e a última, cada lojista e colaborador precisará entender o momento do mercado e dar respostas. Ter iniciativas e governar esse novo espaço, regendo os formatos físicos e digitais será fundamental para atender o novo público.

Afinal, por que se tornar síndico?

Por Rafael Lauand, CEO e Co-fundador da Lar.app

Se você gosta de estar a par de tudo que acontece em seu condomínio e realmente se preocupa com o seu patrimônio, provavelmente já pensou em virar síndico, não é mesmo? Ou, quem sabe, essa ideia surgiu de seus familiares ou amigos próximos. Não importa qual tenha sido a sua motivação, se você vai assumir essa função ou tem em mente assumir algum dia, é preciso se preparar!

O síndico é o maior responsável por um condomínio e, justamente por isso, não é qualquer pessoa que pode assumir esse grande desafio. As responsabilidades da função são muitas: noções administrativas, legislativas, além de uma profunda capacidade de gestão financeira, de fornecedores, manutenção e de pessoas. Nesse sentido, algumas pessoas podem acabar se sentindo intimidadas com as responsabilidades.

O papel do síndico é tomar as decisões importantes sobre o condomínio e o futuro de seus moradores, representando essa comunidade. Além disso, esse profissional responde civil e criminalmente pelo condomínio. Como a lista de responsabilidades é grande, não são muitos os condôminos que se candidatam para tal posição. Afinal, em uma rotina tão corrida como a dos dias atuais, assumir mais um desafio parece loucura.

Mas, se você está lendo esse artigo, provavelmente você tem interesse em saber mais sobre a função. Apesar de não exigir uma formação específica, essa atuação exige certa complexidade. Muitos são os questionamentos: O síndico precisa residir no condomínio? Um inquilino pode ser síndico?

De acordo com o Código Civil (artigo 1.347), o síndico de um condomínio deve ser eleito em uma assembleia, podendo ou não ser um condômino. A mesma cláusula ainda define que o prazo para o exercício da função não pode superar um mandato de dois anos. Entretanto, a pessoa poderá ser reeleita conforme desejo dos moradores por tempo indeterminado. O mesmo Código Civil ainda determina que qualquer pessoa (pessoa física ou jurídica) pode ser síndico de um condomínio.

Dessa maneira, essa definição permite que qualquer possa possa assumir assuma a função, ou seja, sem precisar morar na comunidade. Esse mesmo detalhe, inclusive, possibilitou a disseminação cada vez maior da profissionalização do síndico, que pode atuar em diferentes empreendimentos ao mesmo tempo.

Assumir o papel de síndico é um grande desafio, por conta do considerável número de responsabilidades. Ao assumir o cargo, o profissional ficará encarregado de gerenciar funcionários, assembleias, atender os condôminos, lidar com questões administrativas, financeiras, manutenções e ficar responsável pela valorização do patrimônio. Um dos principais conselhos é ficar rodeado de empresas de confiança e fornecedores que realmente ajudem em sua rotina. E aí, preparado?

Implementando BIM: dificuldades na relação entre cliente e fornecedor

Por Marcus Granadeiro

A implantação de processos em BIM (Building Information Modeling) já não é uma opção, mas sim uma necessidade. As dúvidas ficam relacionadas a quando e como implementar. Para que não se transforme em um custo e acabe prejudicando a empresa, é muito importante que ela esteja alinhada com o planejamento estratégico do negócio e tenha acompanhamento e patrocínio de decisões em níveis estratégicos.

A direção da empresa precisa entender o que é BIM, ler o mercado, estudar o movimento dos concorrentes e as demandas dos clientes, que ainda podem estar ocultas. Um dos erros mais comuns é olhar a tecnologia dentro dos processos legados, imaginando que apenas com sua adoção ocorrerá redução de custo e aumento de produtividade.

Além dos pontos acima mencionados é preciso pensar em novos produtos e soluções com a visão do cliente. Este é o caminho para a verdadeira Transformação Digital, na qual o BIM irá trazer a competitividade necessária para manter o negócio e prosperar.

A fórmula parece simples, mas temos alguns obstáculos. Um dos mais significativos está relacionado à forma como se compra tecnologia. Normalmente, o fornecedor de tecnologia não conhece a estratégia do cliente, nem ao menos fala com os executivos de níveis estratégicos. Na verdade, ele vende e promove a tecnologia baseado em manuais de marketing do fabricante ou no que ele “acha” que o cliente precisa. Muitas vezes, o próprio interlocutor pelo cliente não tem a visão necessária e acaba aplicando a tecnologia com foco desalinhado aos objetivos táticos.

As implantações em BIM e incorporações de tecnologia sem uma clara visão de suas razões e consequências em relação aos planejamentos da empresa normalmente não dão certo, são taxadas de “caras” e acabam ficando sem budget…e fim da linha!

Marcus Granadeiro, engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da USP, presidente do Construtivo, empresa de tecnologia com DNA de engenharia e membro da ADN (Autodesk Development Network) e do RICS (Royal Institution of Chartered Surveyours).

Tags, , ,